Remix — parte 2: imagens

Continuando o assunto do último post:

Pedra com inscrição: "The bad artists imitate, the great artists steal"
Frase atribuída a várias pessoas (obviamente)

Para começar, eis um exemplo famoso:

Barack Obama em foto e arte para campanha elitoral
À esquerda, foto de Mannie Garcia pela agência AP e à direita, arte de Shepard Fairey

Antes de tudo ser acertado rolou um arranca-rabo sobre os direitos de imagem entre o fotógrafo Garcia, a agência AP (pela qual foi contratado como freelancer) e o Fairey, que inicialmente não deu créditos à foto e ainda afirmava que não era esta a usada como base. A esquivada até poderia colar, já que achar registros do Obama com este semblante não é difícil.

Pasta de computador "obama looking soulful" com várias imagens parecidas

Sobre o resultado final, é realmente é um trabalho único, mas não tem como negar que a fotografia tem seu papel ao já expressar boa parte da aura de “ao infinito e além” do presidente – mais Buzz Lightyear que isto só a carinha do George Clooney, que estava ao lado.

Acredito que este tipo de uso, em muitos casos nem geraria problemas, mas tem que se levar em conta a abrangência, importância e exposição mundial da campanha em questão.

Por fim, acabou que todos entraram em acordo e o fotógrafo ainda acrescentou que a personalidade retratada é quem deveria ter os direitos de imagem (o que faz sentido).

Shepard Fairey é sem dúvida um grande artista da atualidade, e como sua base é a arte de rua, faz assim como no rap, uso de muitos samples para compor seu trabalho e expor ideias da maneira mais impactante e objetiva possível. Considera que as causas sociais estão acima de qualquer lei, o que é muito legal, mas as críticas que caem sobre ele são sobre como apesar de fazer seu trabalho usando o de outros, protegidos por direitos autorais, Fairey impede e até processa quem quer que use suas imagens para gerar novas aplicações.
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Terceiro olho: "I see"

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Além disso, não revela abertamente as fontes que utiliza.

Partindo agora para um caso recente:

Comparação entre capas de "Amar pra viver, ou morrer de amor" e "Circus Maximus"
Álbuns de Erasmo Carlos e Morlockk Dilemma.

Como disse à Folha o ilustrador José Luiz Benício (aliás, um grande nome):

(…) ele copiou exatamente a mesma capa que eu desenhei, o fundo, é tudo igual, a essência é a mesma, só mudou a cabeça do cara“.

Velhinho com a cabeça no buraco de mural ilustrado
Face in hole fazendo escola

Esse tipo de pilantragem você encontra no site You Thought We Wouldn’t Notice, onde usuários publicam acusações de apropriações indevidas de seus trabalhos. Lá se vê muita cópia descarada, mas como é bem difícil dizer até que ponto as apropriações são sensatas, ou o que pode ser apenas semelhança, nota-se muita tempestade em copo d’água também.

Tirinha: inociente desenho de criança sendo acusado de plágio

Falando nisso, com a divulgação do logotipo das Olimpíadas no Rio, passou-se a apontar um suposto plágio, incluindo um clássico quadro de Matisse:

Logotipo da Olimpíada do Rio 2016
Logotipo olímpico criado pela agência Tátil

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Logotipo da fundação filantrópica Telluride
Logotipo da fundação filantrópica Telluride

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Quadro A Dança, de Henri Matisse
A Dança (Henri Matisse)

Beleza… se ninguém mais pode fazer ciranda, que acabem logo com essa pouca vergonha!

Desfeixo satírico: espantando os dançarinos nus de A Dança
Akuaku

A Dança pode até ter sido uma das inspirações para o logo, mas creio que seja um caso de referências mais amplas.

Meme: "If you steal from an author it's plagiarism; if you steal from twenty authors it's research."
Viva ao roubo honesto

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Não é nenhuma surpresa que a TV adapte várias ideias vindas de nossa querida internet, principalmente em comerciais e clipes musicais.

Um vídeo que ficou muito famoso foi este da Diesel, com filmes pornôs censurados por desenhos ao estilo MS Paint:

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De fato, só adaptaram uma ideia antiga (que já é em si um remix) de fóruns e blogs da web, algo conhecido como “make porn not porn“, ou o que você encontra no site Porn Safe For Work:

Ilustrações inocentes censurando fotografias pornográficas

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O clip de We Are Your Friends (Justice vs. Simian) faz basicamente a mesma coisa; recria quase com exatidão fotos que rodam a internet, de pessoas bêbadas, alopradas por amigos.

Pessoas bêbadas sacaneadas por amigos

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Há de se convir que combinou muito com a música:

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São adaptações malandras, mas que pelo menos levam as ideias a outro nível, público e contexto.

Ainda falando de internet, quando as referências ou mesmo os remixes se perdem nesse limbo, é um problema. Fica difícil traçar paralelos, dar créditos, saber fontes ou mesmo se o que você vê, não é de fato, genuíno.

Capa de livro alterada com cachorro: "Good-bye, Testicles – Anne Welsh Guy"

Dá até para acreditar que a capa acima não é uma montagem, afinal, tem muito livro infantil bizarro por aí (ex.: 1, 2 e 3).

Nesta linha de reedição não tem como esquecer de Kung Pow e do Sealab 2021, que é um ótimo exemplo na animação – frisando para quem não viu este último, que funciona melhor com a dublagem brasileira, feita pelo excelente Guilherme Briggs –, mas esses são remixes mais do que óbvios, onde a graça está justamente na comparação com o material original, mesmo que presente só em estilo (caso de paródias e sátiras).

Por falar em animação, uma sensacional, criada a partir de recortes de antigas figuras educativas, é esta do finado Run Wrake:

Me agrada essa coisa de releitura de pérolas esquecidas, reformulação de ideias não valorizadas previamente, homenagens, trabalhos colaborativos, Creative Commons e tudo mais. E sou um grande fã de colagens, montagens e interferências, desde a época da escola, quando uma das minhas atividades favoritas era pegar os livros novos no começo do ano para procurar ilustrações e fotos passíveis de alterações ou inserções de deturpados diálogos. Um caso clássico: SEMPRE tinha gente apontando algo (para outra pessoa, para cima, para algum objeto, para o além), então, desenhar um trabuco na mão de tais personagens era irresistível.

Papa João Paulo II em montagem com arma
Só não ficava melhor que isto
Menina com braço biônico atirando com metralhadora inserida em montagem
Ou isto

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E com certeza teria alteração mesmo que as figuras já viessem armadas, pois tem graça mesmo assim:

Cena de O Exterminador do Futuro 2, retirada as armas e inseridos objetos como violão e sorvete
Outro belo achado

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Infelizmente não tenho mais esses livros, mas a internet nunca nos desaponta ao apresentar exemplos ainda melhores:

Sequência de desenho "cabelo virando pássaro e saindo voando", feita a partir de fotografia de livro oriental

Desenhando instrumentos em cima de neandertais em livro ditático
Desenhando felino a partir de ilustração anatômica de vagina

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Funciona também com jornais:

Foto de jornal com Michelle Obama correndo atrás de crianças, segurando machado desenhado à caneta

Foto de político com fones de ouvido desenhados para parecer DJ

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E em outdoors e mídias públicas:

Outdoor rasurado: "crianças diagnosticadas com… bigode"

Cartilha explicando como salvar vítima de engasgamento, tendo Darth Vader adicionado

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Nos cavaletes de candidatos, nem se fala:

Adesivo de campanha política vandalizado: de "Neto" para "Magneto"

Cavalete de campanha política vandalizado: candidados com cabelos e óculos de Ramones.
Voltando ao assunto, o problema no meio artístico é que sempre vemos os casos nos quais pegam muita carona e nem ajudam com a gasolina, e esta ideia de apropriação visando unicamente vantagem e méritos próprios não é muito anormal em agências de publicidade e escritórios de design. Eu mesmo já presenciei casos do tipo: “É pra seguir a ‘referência’. Olha lá! A cor do fundo não é essa. Só faça igual”. Aí, rezam para ninguém notar.

Foto de banco de imagem com pessoas saltando felizes sobre fundo gramado com céu azul
Profissionais “criativos” dando a mínima para o copyright alheio (termo mal interpretado como: copiedireito)

Convenhamos que há circunstâncias mais difíceis de analisar, como esta abaixo, onde o inglês Aled Lewis se baseou no meme Not Shure If, que utiliza imagem do personagem Fry, da série Futurama, e simplesmente passou a vender seu poster por £50,00.

Quadro feito com Fry de Futurama: "Not sure if art … or copyright infringment"
Not sure se aproveitador ou bem esperto

Talvez Matt Groening e a Fox só não tenham ficado sabendo ou não ligaram, porque eu não sei como ele se safou legalmente. Acho que aí é tipo aquelas situações onde o aluno aproveita uma brecha para fazer graça na prova, de um jeito que o professor não tem muita opção a não ser considerar a resposta como certa e deixar passar.

Questão: Localize o Brasil no mapa e escreva "seu nome" (Everton)

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No fim das contas, é notável que nem sempre podemos esperar das pessoas uma genuína vontade de fazer algo diferente. Então, para finalizar, um clássico vídeo musical sobre criatividade:

*Atualizado em março de 2016