Taxidermia e arte

Anatomia animal, relíquias, humor não intencional e arte. Eis aí uma junção de coisas legais. A começar por estas taxidermizações malfeitas (taxiderpy):
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Cachorro mal taxidermizado
Chuva + lembrança da janela do quarto aberta
Urso polar mal taxidermizado
≖_≖
Onça, leão, gato e felino não identificável mal taxidermizados.
The Lovecats (o clipe entra na onda)

Algumas antigas aberrações, como o leão no canto superior direito (1731), são resultados de trabalhos feitos por taxidermistas que nunca haviam visto o bicho de verdade, em vida. Não é de se espantar que ficassem parecidos com personagens da série Lion Man:

.Personagens de Lion Man.
Nisso a gente lembra daquele papo de que a taxidermia deveria ser a arte de reconstituir a aparência de animais de maneira fiel, como se estivessem vivos, não é?

Sapos taxidermizados em "sala de aula".

O fato é que desde a Era Vitoriana profissionais tem feito grandes esforços ao “empalhar” (atualmente usam moldes de poliuretano) animais das maneiras mais esdrúxulas.
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Esquilos e gatos taxidermizados por Walter Potter
Walter Potter

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Esquilos taxidermizados à venda no eBay
Sabe-se lá de onde saíram

Esquilos são tão populares neste estilo antropomórfico que tem até à venda no eBay.

Esquilo "western" com chapéu, cigarro e armas
Descrição: A brand-new, unused, unopened, undamaged item

A raposa abaixo foi mais uma que surgiu no site de vendas e ganhou fama instantânea:

Raposa mal taxidermizada: "please kill me … AGAIN"
Stoned Fox

Depois de dar uma passada pelo grupo Bad Taxidermy (Flickr), além das páginas de Facebook Badly Stuffed Animals e Crappy Taxidermy, descobri trabalhos inusitados de artistas como Jessica Joslin, Julia de Ville, Mike Libby e da dupla Afke Golsteijn e Floris Bakker.

Bezerro taxidermizado por Jessica Joslin
Jessica Joslin
Coelho taxidermizado por Julia de Ville
Julia de Ville
Besouro com engrenagens, taxidermizado por Mike Libby
Mike Libby
Leoa e ouro: trabalho de Afke Golsteijn e Floris Bakker
Afke Golsteijn e Floris Bakker

Muita coisa aí pode ser rotulada de rogue taxidermy, vertente que busca fazer trabalhos criativos, misturando animais diferentes e até simulando seres mitológicos e lendários.

Criaturas híbridas, taxidermizadas por Sarina Brewer
Sarina Brewer
Criaturas híbridas, taxidermizadas por Enrique Molina
Enrique Molina

Um caso curioso aconteceu em 1798, quando cientistas ingleses receberam os primeiros desenhos e amostras de um ornitorrinco (até então espécie inédita para eles), enviadas por um explorador. Todos acreditaram se tratar de um trabalho desse tipo, feito para enganá-los.

Até lembrei daquelas figurinhas de chiclete Ploc (o Chicle Divertoso), que tenho até hoje:

Figurinhas de chiclete Ploc (o Chicle Divertoso) – 1995
MOSCAMELO ↑

E tem uma infinidade de exemplos que dá para voltar em 1997 só para cantar o refrão:

Livro: The Authentic Animal (Dave Madden)

Pesquisando pelo tema, acabei trombando com um livro que pelas resenhas e comentários, encomendei de curiosidade para ver ¿qué pasa? com essa coisa toda:
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É uma leitura deveras interessante. O autor é um jornalista que se posiciona como um espectador enquanto desbrava o mundo e a subcultura da taxidermia, e ele mesmo tinha aversão ao assunto anteriormente.

Ao ler a investigação fica mais clara a relação entre a temática e preservação animal, estudo de anatomia, registro biológico, arte e hobby. Além disso, David Madden evidencia a enorme importância que a atividade já teve na história, para cientistas e público em geral, que podia apreciar os resultados em dioramas nos museus. Muitas vezes essa era a única forma de visualizar as criaturas.

Agora, se todos esses animais são mortos por caçadores, intencionalmente para tal ofício, no one knows.

Josh Homme e veado em trecho de clipe do Queens of The Stone Age (No One Knows)
Pare de falar bobagem

Mentira. Eu só queria colocar o clipe do QOTSA em algum lugar por aqui.

Antigamente o pessoal saía sim para “coletar” espécimes, com justificativas científicas, mas apesar de ainda haver caçadores rednecks nesse meio, felizmente parecem ser apenas uma pequena parte, muitas vezes mal vista até na área.

A verdade é que há inclusive taxidermistas vegetarianos estritos (como é o caso da já citada Julia de Ville), e parece que a maior parte trabalha com animais mortos por outros motivos, geralmente encontrados em expedições, atropelados em estradas ou até mesmo doados por zoológicos e criadores.

Provavelmente não é o caso de um famoso suvenir da Zona Franca de Manaus, relativamente comum na década de 90:

Piranha taxidermizada.
Em casa tínhamos uma piranha igual a esta acima, presenteada, e que logo ficou banguela por fazer o papel de mostro marítimo nas brincadeiras com os Comandos em Ação. Enfiar os bonecos e bolinhas de papel na goela do bicho era divertido, mas colocar o Arnold na boca de um crocodilo, com certeza vai além (totalmente Chuck Testa):

Schwarzenegger com a cabeça em boca de crocodilo
Schwarzenegger em foto de Jürgen Teller

Hoje há outras opções para decorar ambientes, sob o termo faux taxidermy. Exemplos são as esculturas de papel (papercraft) do alemão Wolfram Kampffmeyer, encontradas no site Paperwolf:

 Esculturas de papel, criadas por Wolfram Kampffmeyer (site Paperwolf)

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Ou as criações da americana Jen Khoshbin, vendidas em sua loja virtual Ruby’s Lounge:

Cabeças de veados: esculturas de Jen Khoshbin (Ruby's Lounge)

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Assim como os incríveis trabalhos de AJ Fosik:

Trabalhos de AJ Fosik

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Para finalizar, eu até ia terminar com algo mais fofinho, como os crochês da Manafka Mina (feitos pela Hadar Kaplan):

Taxiermia de crochê – Manafka Mina (Hadar Kaplan)

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…mas as figuras me fizeram remeteram à Roadkill Toys:

Pelúcias de animais atropelados da Roadkill Toys

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Que na sequência me fez lembrar de um artista holandês, que após ter seu gato atropelado, o transformou em drone (depois ele criou uma empresa só disso):

E que me fez lembrar de uns aeromodelos de rádio-controle em formato de gente:

Que me fizeram perceber que dá pra render desvirtuando o assunto com coisas aleatórias que voam:

Chega.

*Atualizado em março de 2016