Reles cartões de visita

Como o assunto é relacionado a apresentação, aproveito para reintroduzir este blog, ressuscitado na última reformulação do site.

Sobre os cartões de visita, muitas vezes os vejo descartáveis como os flyers, e parafraseando o finado Mitch Hedberg, geralmente quando alguém te entrega um é como se dissessem algo do tipo:
Aqui. Joga isso fora você.

OK, eu sei que em vários meios, principalmente nos mais tradicionais e pomposos, os cartões ainda são essenciais, e algumas pessoas tem uma certa fixação por esses papeizinhos, à la Patrick Bateman.

E em países como o Japão, tamanha é a importância dada que quase se faz necessário um manual para entender toda a etiqueta relacionada à troca de meishi, que são considerados quase como uma “extensão da alma” do profissional.

Concordo que mesmo hoje em dia, com tanta coisa transportada para os meios virtuais, essas peças gráficas ainda podem ter um papel fundamental, por serem um modo mais pessoal de intercambiar contatos. É certo também que o cartão pode ser uma ótima oportunidade de gerar uma primeira impressão positiva e profissional de você ou sua marca. A questão é que o valor dele é relativo.

No meu caso (e de muita gente), na grande maioria das vezes não trabalho em contato presencial com clientes, nem indo a diversas reuniões cheias de profissionais diferentes ou participando de conferências. Também não uso o método de distribuição aleatória em caixas de correio. Assim, se eu pedisse para a gráfica imprimir o tal milheiro, seria certo que eu morreria com uma bela pilha de unidades empoeiradas, como sei que acontece com mais gente.

E quando eu digo que não sou grande fã dessa mídia, falo dos cartões dos outros também, já que podem vir acompanhados de um cansativo papo de auto-promoção e descrição do “maravilhoso” mundo daquele tipo de serviço, trazendo à tona a mesma sensação de ter que esperar um anúncio no YouTube.

Tira de Jim Benton sobre a espera de anúncios em vídeos do YouTube

Se o flyer é o eleito spam da vida real, o cartão de visita candidata-se a pop-up, e como não existe Adblock fora do universo virtual (quem sabe no futuro?), muita gente não vê a hora de só guardar logo o papel que recebeu, para lembrar daquilo apenas um tempo depois, ao encontrá-lo disforme e úmido dentro do bolso de uma calça lavada.

Aí para tentar driblar o inevitável destino, que é a lata de lixo, surge a tática de fazer algo “criativo e lúdico”. Provavelmente você já viu algum link sobre certas extravagâncias em sites tipo o Hypeness, Pinterest etc. Aqueles cartões que acendem, esticam, que podem ser grelhados ou plantados em um vaso, que viram escova de dentes, que tocam música. Eu não sei… em alguns casos vejo essas coisas como uma versão impressa de truques engraçadinhos, do tipo:

Truque infantil de "deslocar" o dedão

E sim, eu sei que até existem exemplos muito bons e incrivelmente pertinentes, que provavelmente ganham o cliente de imediato. O negócio é que há um alto risco de que por mais complexo, oneroso e bem produzido que seja, o resultado se apresente como uma grande forçação de barra. Pode até rolar uma desculpa de se mostrar “tecnológico”, como por exemplo, inserindo um inconveniente QR code ou algo do gênero, que… sério, ninguém liga. Tais códigos de barras alternativos até foram uma grande promessa, mas definitivamente não vingaram (exceto na China).

Fluxograma sobre não usar QR code
Fluxograma: eu deveria usar QR Code?

Na verdade, a esta altura, nem compensa mais zoar mau uso de QR code, pois é chutar cachorro morto. E este já seria outro papo, onde aplicativos como o extinto Bump — cogitado à época como uma alternativa virtual aos cartões de visita — também entrariam na roda.

Voltando aos papeletes, cada caso merece uma análise própria, porém ser direto ao ponto, de modo apresentável e sem firulas ainda é uma ótima estratégia.

Sempre me lembro do livro Não Me Faça Pensar, de Steve Krug, quando a ideia é limar encheção de linguiça. Mesmo depois de tantos anos. E olha que é uma publicação sobre webdesign, lançada inicialmente em 2000 (apesar de haver edições mais atualizadas), época em que sites te reverenciavam com textos úteis tipo “seja bem vindo ao meu site”, e tinham botões de “entrar”, mesmo você já estando ali.

Rex Kramer (Robert Stack), cena dos óculos em Airplane! (Apertem os cintos! …o Piloto Sumiu!)
Redundância ou pleonasmo?

Finalizando, sei que os cartões ainda tem seu valor. Mesmo que eu não faça muito uso, tenho sempre umas poucas unidades do meu próprio, básico, tamanho padrão, preto e branco (um bom papel em gramatura alta sempre vai bem). Como só os entrego pessoalmente, em uma conversa na qual está claro o que faço profissionalmente, a URL acaba sendo a única informação de grande importância, já que meu nome é o mesmo do domínio em questão. Sendo assim, resolvi fazer uma leva apostando numa tática “menos é mais”, só adicionando o logo junto ao endereço. Garanto que ninguém vai querer me ligar ou mandar um email antes de pelo menos dar uma passada de olho pelo portfolio online. E levar o potencial cliente a acessar o site exibido é só o que a peça precisa fazer por mim, já que lá sim, tem tudo o que ele precisa.

Cartão de visita (Luciano Baêta) apenas com site e logo

Confesso que ao optar por algo simples, muitas vezes ouço o eco distante do antigo ditado: em casa de ferreiro o espeto é de pau. Entretanto não digo isso como se fosse algo ruim, pois analisando o aforismo com atenção, apesar de muita gente achar que o ferreiro usa espeto de pau por mero desleixo e preguiça de trabalhar para si próprio, na verdade pode ser por conhecimento de causa, já que é justamente quem sabe que um de ferro acabaria queimando a sua mão.

“Um relacionamento genuíno vale por um punhado de cartões de visita” (Susan Cain)