Prisma, rotoscopia e A.I.

Desde que foi lançando, há cerca de dois meses, o Prisma já proporcionou uma avalanche de imagens espalhadas por aí. Como todo filtro, ele ainda carrega um certo ranço de pasteurização e falta de originalidade (característica agravada pela popularidade). Porém convenhamos que esse é o primeiro – utilizado em larga escala – a apresentar uma significativa evolução nos resultados, com potencial de gerar imagens interessantes. A esta altura, todo mundo já sabe que isso se dá graças ao tão falado implemento de redes neurais artificiais, modelo computacional que impressiona até jogando Super Mario World.

O que se vê na prática é que padrões de pixels são detectados e tratados de maneira não-genérica, como se o aplicativo russo entendesse formas geométricas, objetos, figuras em geral e até o conceito de volume. As imagens são analisadas e o processamento é feito mantendo as características que tornam as figuras identificáveis, incluindo partes mais específicas, como cabelos, olhos, nariz etc.

Se fôssemos comparar com robôs, os filtros conhecidos até então seriam tipo as criações da sueca Simone Giertz (menos o lado divertido):

Simone Giertz e seu robô de passar batom

…e os que usam RNAs, já seriam mais habilidosos, analisando o contexto e tratando a informação de modo mais cuidadoso:

Robô inteligente movendo copo de vidro na cozinha

Filtros, como conhecíamos, pelo fato de só funcionarem bem em aplicações MUITO específicas, costumavam ser bem ruins e nada profissionais. Segundo uma melhor analogia, retirada deste link, seria possível compará-los ao grande invento abaixo:

Forma fatiadora de bananas
Fox Run Banana Slicer

Se você tivesse uma banana do tipo certo, mesmo tamanho e curvatura do cortador, e quisesse fatias com aquele exato espaçamento, o aparato até poderia ter alguma utilidade, poupando “preciosos segundos”. Mas não nos surpreende que não seja algo adotado por profissionais da cozinha.

Por isso é bem interessante ver como a inteligência artificial vem ampliando enormemente as possibilidades no universo gráfico. Talvez você já tenha lido sobre colorização automática de fotografias em preto e branco, e é certo que já viu algo sobre o como o Google Deep Dream aprende a identificar objetos. Este último, um marco na área, também rendeu aplicativos, sites e vídeos condizentes com o tema.

Voltando ao Prisma, tenho certeza que outras pessoas que se interessam por animação, também constataram ao testá-lo: está aí o futuro da rotoscopia. A técnica, patenteada por Max Fleischer em 1917, consiste em criar animações sobre referências reais, filmadas/fotografadas, e sempre foi muito utilizada com objetivos distintos (em um outro post sobre animação, comento sobre o uso em antigos filmes da Disney). Hoje é provavelmente mais conhecida pelo ar surreal que proporciona, ao estilo dos longas de Richard Linklater, como Waking Life (2001) e Scanner Darkly (2006):

 

 

O primeiro exemplo ficou famoso por apresentar uma considerável evolução técnica, já que o software (Rotoshop) desenvolvido para auxiliar a produção, facilitava o processo, criando key frames e interpolando parte da animação. Ou seja: não era necessário desenhar quadro a quadro exatamente, já que havia a possibilidade de a partir de algumas ilustrações-chave, deixar o computador criar de maneira automática os quadros intermediários. Isso já reduzia bastante o trabalho.

Poucos dias depois de pensar sobre o assunto, resolvi pesquisar e já era possível ver uma quantidade relevante de vídeos “rotoscopados” com o Prisma, além de um anúncio da própria empresa dando a entender que em breve poderá adicionar tal funcionalidade, poupando os usuários de fazer tudo “na unha”.

 

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Outra possibilidade é a inclusão de algum recurso similar ao face swap do Snapchat.

De qualquer forma, também não esperei para fazer meu pequeno teste “artesanal”, à la Jack Nicholson:

Rotoscopia feita com o Prisma, utilizando o filtro Heisenberg – Luciano Baêta
Rotoscopia “Heisenberg”, te inserindo em um clipe do A-ha

Ostagram, Malevich, Artisto, Vinci, Artbot (todos também russos), DeepArt (alemão) e Pikazo (americano) são mais exemplos de aplicativos similares ao Prisma. Alguns já vem investindo em vídeo.

 

Ainda assim, apesar de não ter sido o primeiro, é esperado que o Prisma traga mais visibilidade e facilidade de uso em relação ao processamento de imagens em movimento.

Acredito que ainda veremos boas produções feitas com softwares similares.

 

Certamente também teremos que aguentar muita porcaria gratuita entulhando timelines por aí.

 

Com dada evolução tecnológica, cada vez será mais comum discussões sobre inteligência artificial no meio das artes.

Este é um assunto que, de maneira mais abrangente, pode até assustar, mas não dá para ter medo de tecnologia…

Quer dizer… você pode até temer possíveis usos dela, mas novos recursos em si podem sempre trazer algo de positivo. Assim, principalmente para quem trabalha em áreas afins, o jeito é ficar atento para não se perder em meio a tanta novidade.

Cena de Mad Men