Remix — parte 1: música

Se Chacrinha dizia que na TV nada se cria, tudo se copia, na internet então nem se fala. Mas para focar um poucos mais, vamos falar de música e intertextualidade.

Então formem duplas e enumerem a segunda coluna de acordo com a primeira, para relacionar tantas referências, alusões, sátiras, paráfrases, paródias, plágios e pastiches.

O meio digital é um bom ponto de partida para alguns exemplos.

O vídeo abaixo — apesar de grande e provavelmente chato para quem não está nem aí para produção musical — é interessantíssimo por mostrar o processo de construção de Smack My Bitch do Prodigy, a partir de várias músicas. Os samples (de Kool & the Gang a Rage Against the Machine) são recortados, colados, “loopados”, tem o tom alterado, recebem efeitos e tudo mais.

É impressionante como cria-se algo realmente novo através de muita manipulação de sons e arquivos MIDI.

O fato é que não tem como uma obra surgir do nada. O resultado do processo criativo é sempre uma grande mistura e adulteração de referências.

Fazendo uma analogia, se fosse uma bebida tipo uma vitamina, quanto mais ingredientes e quanto mais picados em pedaços superpequenos, mais aparentaria originalidade (usar ingredientes menos óbvios ajudaria muito também). Assim, numa mistura bastante homogênea fica difícil perceber o que há ali no meio. O sabor nos parece “inédito”.

Canal do YouTube "Will It Blend?"
Lembram disto?

Mas em alguns casos as misturas são mais heterogêneas.

O vídeo a seguir apresenta exemplos do Daft Punk, onde, nesta vitamina, se perceberia uns toloscos boiando (tipo achocolatado Muky, aquele que empelotava todo). Mas ainda sim é muito bom:

Essas apropriações estão em todo lugar e às vezes é difícil perceber, gerando momentos de confusão mental na cabeça do cidadão.

Situação: você pode estar andando preguiçosamente dentro de um supermercado, procurando onde raios está a porcaria do iogurte que te mandaram comprar, quando ao reparar na música ambiente, digamos, Holiday (da Madonna), te vem à cabeça a imagem de um pequeno James Brown indiano, de sorriso petrificado, que você suspeita ser uma criança — mas espero que não, POIS ELE FUMA — dançando como um robô de brinquedo sinistro e… O QUÊ!? Ah, sim!… É porque a base da canção saída das caixas de som do local é a mesma da música existente em um vídeo famoso que você já tinha visto por aí:

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Um site legal para saber de onde saem os samples de várias músicas é o Who Sampled (Exploring and discussing the DNA of Music). Se digitar uns povinho do hip-hop moderno aí, é capaz de travar o navegador.

Mas o melhor vídeo abordando este assunto na música, em especial falando do Led Zeppelin, é do ótimo Everything is a Remix (abaixo, só a parte 1, porém o projeto todo é fantástico e vale a pena conferir):

Cid Moreira no Fantástico
Aaaaah, Mr. M…

Falando desses exemplos do Led, gosto da banda e não acho que os casos citados no vídeo cheguem a tirar o mérito do grupo. Mesmo porque, os caras levaram as composições a outro patamar, diferentes contextos e novos públicos. Porém não nego que quando assisti pela primeira vez pensei: safados!

E afinal, o que seria do MC Hammer e sua U Can’t Touch This, se não fosse Super Freak de Rick James (aquela da Pequena Miss Sunshine)?

Mc Hammer e sua dança de Can't Touch This
Dança do Siri é um remix de MC Hammer? Calças cagadas também?

Mas vamos falar de quem manja disso tudo:
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Vanilla Ice em pose babaca.

Tem muito caso como o da clássica Ice Ice baby (a versão do Jim Carrey é ainda melhor), onde o maluco aí pegou a introdução instrumental de Under Pressure do Queen & David Bowie, disse que adicionou uma nota no baixo para “torná-la legal” e lançou o disco. Pena que não achei a entrevista com a piada que é ele explicando as diferenças. Vai ver a destruiu junto com um set da MTV anos depois.

Como exemplo bem recente dessa malandragem, um dos grupos especialistas em samplear música dos outros, o Black Eye Peas, foi processado mês passado por George Clinton do Funkadelic por usar trechos de (Not Just) Knee Deep na música Shut The Phunk Up. Fora Jorge Ben Jor, Chicago e provavelmente outros que também já tiveram problemas com o grupo.

Nada que um prévio contrato milionário não resolvesse, até porque, foi assim que a Madonna conseguiu usar o ótimo riff de sintetizador de Gimmie, Gimmie, Gimmie do Abba na sua Hang Up.

ABBA de braços abertos
— Gimmie, Gimmie, GIMMIE!!!

Quando há um acordo entre ambos os lados, funciona muito bem, mas se não há, pode ter certeza que um sonoro “hey, hey, hey” surgirá na mente de algum engravatado com cifrões nos olhos, que inevitavelmente irá cobrar.

Senhor Barriga cobrando o aluguel de Seu Marduga
Pague o copyright

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Dá para sacar como é tênue e embaçada, a linha (OK, chega de trocadilhos) entre referência e apropriação indevida. Nota-se que as coisas ficam mais subjetivas quando a cópia está mais no clima geral ou conceito e não em sequência de acordes, melodias e letras. Assim, alterações de arranjos e temas líricos podem ser a chave para discretamente afanar criações alheias sem risco de envolvimento em imbróglios judiciais. Por isso a vitória da família Gaye nos tribunais me surpreendeu, pois até onde eu sei (ou sabia), estilos e gêneros artísticos não são passíveis proteção de direitos autorais, caso contrário, sátiras — como as abaixo, demonstrando “segredos” de certas composições — até poderiam cair na definição de plágio:

É curioso como boa parte do que é sampleado no mundo sai da black music, principalmente funk e soul dos anos 60 a 80. Provavelmente isso ocorre por serem dos estilos musicais mais animados e por atualmente pouca gente conseguir colocar tanto groove, alto astral e criatividade sonora como aquela galera americana fazia. Fora que esse tipo de som chegou a ficar um pouco de lado há um tempo atrás, então os recortes poderiam passar mais batidos. Entretanto convenhamos que em vários casos melhor seria que sampleassem apenas a 4′33″ do John Cage, para não causarem tantos estragos.

Enfim, não vou me estender a todos os pontos sobre copyright aqui…

Lars Ulrich (Metallica) emburrado

…porém é legal saber que autores demonstram mais senso de humor quando são referenciados em remixes cômicos, e assim, não costuma rolar (tantos) processos. Até porque, no caso de paródias, a Lei ajuda:

Artigo 47 da Lei de Direitos Autorais: São livres as paráfrases e paródias que não forem verdadeiras reproduções da obra originária nem lhe implicarem descrédito.”

O Metallica, por incrível que pareça, curte e apoia o engraçadíssimo Beatallica, que mistura as músicas da banda com canções dos Beatles. Kurt Cobain também aprovou a Smells Like Nirvana do Al Yankovic. E o Robert Plant adora o Dread Zeppelin – mas o Jimmy Page não. Apesar de eu não saber como alguém pode não gostar de covers do Led Zeppelin em ritmo de reggae cantados por um cara que imita o Elvis Presley:

Se você toca algum instrumento e pelo menos já tentou compor algo, sabe como é comum coincidências e referências rítmicas/harmônicas/melódicas, sem querer querendo.

Exemplificando: você faz um som, brinca um pouquinho, fica feliz que fez um riff bacana, até que semanas, meses ou anos depois, ao escutar uma esquecida música mais lado B de uma banda que gosta, vem a revelação…

Hommer Simpson: "D'oh!"
E não é só com música

É o que Trent Reznor disse (a partir de 2:08 no vídeo) que rolou quando compôs A Warm Place, muito similar Crystal Japan do David Bowie. Ele gostou muito da melodia e ficou com a impressão de que aquilo já existia. Durante o processo de produção tentou de várias formas achar de onde estava tirando aquelas notas, mas não conseguiu. Acabou lançando a música assim mesmo. Ainda bem!

Uma vez vi o Ben Folds comentando numa entrevista, enquanto dava risada, que um belo dia recebeu uma ligação de Elton John (um de seus ídolos, e com quem ele já fez colaborações), elogiando o novo álbum e aproveitando para alfinetá-lo, brincando: “Parabéns pelo disco, gostei muito! Principalmente daquela faixa roubada de mim”. Após alguns segundos se perguntando do que ele estava falando, a constatação fica clara e o Ben Folds: “aaaah!… Aqueeela música”. Elton John se referia a excelente Zak and Sara, que tem um riff de piano muito parecido ao da introdução de sua Teacher I Need You. Segundo Folds, ele mesmo nunca tinha percebido as similaridades e diz ter sido algo totalmente subconsciente. No fim das contas as canções se desenvolvem de maneiras bem distintas.

Pode ter certeza que quando o Ben Folds imita alguém, de propósito, fica bem claro:

Ben Folds imitando Fred Durst do Limp Bizkit
Quem é? Valendo um biscoito

Por isso acredito que muitos supostos plágios ocorrem de maneira não intencional. Afinal, nossa memória é muito menos confiável do que nos parece.

Fora que nem é tão difícil criar algo semelhante a outra coisa que já existe, sem que você tenha tido conhecimento prévio.

No blues, por exemplo, já até faz parte do estilo toda uma permutação simples de riffs, harmonias e letras (saiba mais e torne-se uma lenda do Mississipi com o The Blues Maker).

O que mata são aqueles exemplos do Axis of Awesome e ScripTease (versão nacional), das músicas com os mesmos quatro acordes. Mas aí já são só clichês mais previsíveis do que repórter saindo do provador de roupas no começo de matéria sobre moda.

Considerando que estamos falando de música popular ocidental, nada disso surpreende, e judicialmente só os detentores dos direitos autorais de uma obra é que podem “cobrar o vacilo” através de acusações de plágio.

Para fechar essa parte, primeiro segue um dos fascinantes remixes do Kutiman, criado basicamente com videoaulas musicais do YouTube, resultando em um som superfunky:

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E abaixo, um dos vídeos do Pogo, já bem conhecido também, que cria trilhas manipulando sons de filmes. No caso, O Exterminador do Futuro 2:

Parte 2 aqui.

*Atualizado em março de 2016